terça-feira, 22 de março de 2016



Hoje eu acordei no meio da noite mais uma vez. Isso tem sido recorrente. Acordo com a bexiga cheia ou com um vazio no estômago, o que me faz desistir da cama aconchegante e atender aos apelos do corpo. Ainda demoro uns 5 segundos para lembrar de que agora meu corpo tem uma função diferente de tudo o que já teve até hoje. E vejo que já o atendo com mais complacência. 

Já deitada no sofá, naquele silêncio de madrugada interrompido pelos ruídos da TV ligada, senti meu ventre com as mãos como de costume nesses últimos dias e me peguei surpresa diante de uma nova concepção do que estava acontecendo em minha vida. Uma nova vida estava por vir e eu seria sua porta-voz daqueles momentos antecessores, de tudo aquilo que ela não viu, não presenciou, momentos que antecederam sua chegada, que embalaram meus dias enquanto ela se desenvolvia em mim. 

Então eu chorei. Eu me lembrei de todas as histórias que minha mãe me contava e ainda me conta, momentos dos quais não fiz parte, mas que fizeram parte da vida dela, aquela que me deu a vida, que me concebeu. Eu nunca havia parado para pensar no quanto isso era fantástico. Eu nem existia de fato, mas a ideia do que eu seria já estava ali, mesmo antes de meu coração bater pela primeira vez naquele primeiro emaranhado de células. 

Você já existia em mim há muito tempo. Você esteve em cada pensamento que eu tive sobre a vida, a humanidade, a educação, a esperança ou a falta dela, as dores de uma mãe, em cada resposta genial que eu ouvia de uma criança, conhecida ou não. Você estava naquele breve pensamento bobo quando eu olhava para o seu pai e me perguntava como seria linda uma criança concebida com aquele homem de sorriso bonito. Eu nem queria ser mãe, e você já existia em mim. E eu nem fazia ideia disso.

Você já é uma revolução em minha vida.

26/12/15

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